Era das Conseqüências: A Batalha de Learsi

  • Chapter 5, 11 de Burocracia de 7243 Nossa Senhora

Aqui a Guerra começa

Amada estava certa.
Na manhã do dia 11 de Burocracia de 7243, os jornais de toda a galáxia amanheceram com a notícia: "REVOLUÇAO NO PLANETA Z-20 LEVA A CRIAÇÃO DO PRIMEIRO ESTADO DOS ÚLTIMOS 3000 ANOS".
A Sociedade Discordiana Universal estava cheia. Todos os cavaleiros discordianos da Terra estavam ali, deixando de fora apenas aqueles que já estavam em missão. Aqueles em missão dentro da terra, ou aqueles que estavam sem missão, retornaram imediatamente para a S.D.U.
- Ei! Atenção, ei todo mundo! - Reverendo Kalisti tinham subido na mesa na sala de reuniões. Não que fosse sinal de que a bagunça estava incrível, mas é uma tradição discordiana que quem fale suba na mesa. - Vamos aos fatos. Houve uma revolução que criou um estado, um governo, o sistema monetário parece que vai ser instaurado nos próximos dias e são mais de 300 pessoas.
- E o planeta é relativamente distante. - lembrou alguém da multidão.
Depois disso Éris abriu a porta. Entrava na sala carregando um papel.
- Isso chegou da S.D.U. de Gray Moon. - explicou - é uma convocação extraordinária para guerra.
Silêncio absoluto. Éris subiu na mesa.
"A Sociedade Discordiana não pode aceitar a revolução estatal de Z-20 e declara guerra ao governo revolucionário. Todos os cavaleiros discordianos livres estão convocados para lutar no planeta Z-20, renomeado pelos insurgentes como Learsi."
"Todo cavaleiro tem, como é de costume, a opção de não ir. Porém, aquele que escolher ir deve se dedicar à guerra, como manda a lei discordiana. Todos saúdam Discórdia".
- Salve Éris - todos respondem.


- Amada avisou você há mais de um mês que isso aconteceria. - lembrou Berto, quando ele e Lorde estavam se arrumando para embarcar em uma nave que os levaria para Z-20.
- Sim, mas o que poderíamos fazer? Ela não disse onde o novo Caracinza surgiria.
- Sabe qual é o meu medo? - disse Andreah, interrompendo a conversa, e entrando no mesmo quarto para se arrumar - é que ele não seja o único.
Lorde e Berto voltaram-se para ela.
- Será?
- Ninguém sabe. - continuou Andreah - Talvez ele seja só o primeiro, e pior: esteja treinando pessoas para contaminar mais pessoas ao redor do universo.
- O que, como os antigos pastores, padres e jesuítas?
- Pastores não cuidavam de cabras? - perguntou Andreah.
- Não - respondeu Lorde, que tinha estudado sobre o assunto. - Pastores cuidavam de cabras sim, mas eram eles também que se dedicavam a passar a mensagem de igrejas a outras pessoas, ou melhor, se dedicavam à conversão.
- E o que eram jesuítas?
- A mesma coisa - disse Berto - só que eles viajavam para outros continentes pra fazer isso.
- Nossa...
- É, você levantou uma questão perigosa. E se o tal "Presidente Ariadno" estiver treinando pastores e jesuítas?
- Antigamente - respondeu Lorde - os governos costumavam ter agências secretas, formadas por soldados especiais, treinados para serem discretos e perigosos, para realizar operações sigilosas. E todo governo tinha sua agência de espionagem. Será que esse governo também terá a sua?
- Cavaleiros, a nave está pronta - avisou o engenheiro Omar, que tinha entrado no quarto onde alguns dos cavaleiros (Lorde, Berto e Andreah) se arrumavam para ir - Ela deve chegar ao planeta Z-20 daqui a 30 dias, mas a grande parte da frota discordiana chega daqui a 25 dias.
- Droga... Ficamos com a menor nave. - A nave deles era de menor porte, e a Terra estava fazendo manutenção nas naves intermediárias, e os três cavaleiros foram sorteados para ir nessa nave que cabia apenas 5 pessoas. Mas não foi necessário preencher com mais gente.
- Quem vai dirigir? - perguntou Omar.
- Opa, essa é comigo! - disse Berto.


- Eu não teria me perdoado se não chegasse a tempo para entrar na guerra - disse Andreah.
Andreah e Lorde conversavam enquanto Berto preparava a nave para levantar vôo.
- Você estava em missão onde mesmo?
- Em um planeta muito, muito longe daqui mesmo... Havia uma disputa de terras lá, é uma comunidade humana muito recente.
- Como se chamava o planeta?
- Era o P-71.
- Ah, esse planeta. Eu já estive lá há pouco mais de um ano atrás.
- Vamos subir, pessoal... - avisou Berto.
A nave ganhava altitude.
- Como anda o Uppercut River?
- Nossa, está lindo ainda. A paisagem no centro da cidade é maravilhosa. Pena que tive que viajar pro lado rural.
A nave baqueou, mas não era surpresa, pois estavam entrando no espaço.
- Resolveu tudo por lá?
- Sim, sim, parece que sim. Voltei o mais rápido que pude, estava morrendo de saudade da Terra. Quando voltei, logo tenho que sair...
- Ligando hipermotores de plasma... - resmungava Berto.
- Aproveitando que Berto não está ouvindo... - disse Andreah. - como ele está se saindo na sociedade?
- Está indo bem. Já fez algumas missões, teve êxito.
- Hmm... Eu nunca soube, tenho medo de perguntar pra ele porque pode machucá-lo, sei lá, não sei o que aconteceu, não é mesmo... Por que ele desistiu de ser piloto?
- Ele não desistiu, o volante que desistiu dele... Ele descobriu um problema de visão.
- Sério? Ele não enxergava?
- Foi um tipo de bactéria no olho dele, não sei explicar. Ela danificou os olhos dele. Ele usa magno lente, mas ela pode perder sua eficácia quando confrontada com campos magnéticos, como por exemplo os encontrados em um carro de corrida convencional.
- Ah...
- Enfim... E também por essas e outras que se convencionou que aqueles que tivessem problemas de visão não poderiam participar de competições oficiais. Não é preciso provar que eles podem correr, todos sabem que muitos tem um grande talento, como Berto, mas por causa de acidentes que possam ocorrer, é mais prudente proibi-los de competir.
- Entendo. Que ruim pra ele... - disse Andreah, olhando para Berto que nada podia ouvir, devido ao fone de ouvido que usava para comunicação com a Terra.
- É. Ele então quis estudar para se tornar reverendo discordiano, mas quis ser cavaleiro assim, de última hora. Ele luta bem, tem um talento físico que eu não tenho, ou não tanto quanto ele.
- Ele luta bem?
- Sim, sim. É um dos melhores que já vi em ação.
Berto tirou os fones do ouvido.
- E então pessoal, estão apreciando a paisagem?
As estrelas brilhavam muito na escuridão do universo.
- Com certeza.
Após alguns segundos de admiração do espaço, Lorde disse:
- Eu amo o universo.
- Eu também - disseram Berto e Andreah ao mesmo tempo.


Ele, ao contrário do resto dos insurgentes, não vestia roupas de soldado. Não, ele vestia era roupas elegantes, o terno cinza e a calça cinza, a gravata azul clara listrada, a camisa branca. No pescoço, o pentágono, símbolo de seu Deus, representante de suas crenças, síntese de suas idéias.
Ele tinha acordado. Estava se encaminhando para a sua sala no palácio de governo, a cabala discordiana de Z-20 que havia sido tomada à força pelo exército revolucionário.
- Senhor... - um homem o esperava quando ele entrou no gabinete. - Tenho boas notícias. Nossas tropas dominam as ruas do centro e não há reacionários entre a população.
- Ótimo! - disse Ariadno. - Tudo pronto para a celebração hoje à tarde?
- Sim, tudo pronto.


- Éris, é a sua vez.
Três câmeras estavam apontadas para a mesa. Uma, para o centro. A outra, mais atrás, era mais abrangente, pra ver se ninguém estava olhando para suas cartas. A outra, para suas próprias cartas. E na mesa, direcionada para Lorde, Berto e Andreah, uma projeção holográfica, contendo o rosto de Éris.
Eles estavam jogando Meta Mau-Mau.
- Hmm.. Jogue a minha quinta carta na mesa, por favor.
Sem ver as outras, Andreah jogou na mesa um quatro de ouros. Dava certo, a última carta foi um nove de ouros.
- Ah, que droga... Passo. - disse Berto.


O Reverendo Kalisti estava sozinho na sua sala, quando alguém bate a porta.
- Eeentra... - disse ele.
Era Amada.
- Olá, Amada, como vai?
- Não tão bem. Vim conversar com você.
- O que é? Mais uma de suas previsões com o caômetro? Espero que seja boa, porque você acertou a última.
- Era sobre isso que eu queria falar com você.
- O que é, vamos, fale.
- É que eu andei fazendo umas contas... E eu acho que Caracinza realmente veio na figura de Ariadno para trazer a era das conseqüências.
- Explique. - pediu Kalisti.
- É que... Bom, cronologicamente ele não pode trazer a macroera das conseqüências. Não pode trazer as conseqüências para os seres humanos, tampouco. Mas pode trazer a era das conseqüências... Para o discordianismo.
Reverendo Kalisti engoliu seco e apertou os olhos. Recostou-se sobre sua cadeira reclinável e olhou para o chão.
- Isso faz todo o sentido.
Amada e Kalisti se olharam, ambos angustiados.
- E se for, o discordianismo será capaz de renascer, não é? Ele continuará, porém entrará na era do Caos... Em uma próxima existência, certo?
Kalisti pensou.
- Não sei... Minhas primeiras considerações é que apenas uma união definitiva de dois ciclos é capaz de destruir, se não pra sempre por um bom tempo, um ou outro ciclo. O que vemos aqui é aniquilação. Se você coloca o problema desse jeito, e faz todo o sentido... Quem corre perigo é o discordianismo... E se ele for destruído, quem sabe quando ele renascerá? E se renascer, quem sabe quando ele iluminará a todos novamente? Todo o universo está em perigo, Amada. Dessa forma, a liberdade e o conhecimento humanos mais uma vez estão ameaçados... Cada vez mais é imprescindível que Ariadno seja derrotado. O mais rápido possível.


Poucas pessoas compareceram à celebração de Ariadno, da Igreja do Poder de Deus-Amor, como ele chamava sua crença. Ele falava com entusiasmo, e os soldados na praça do centro da cidade o aplaudiam. Talvez ele tenha conquistado uns poucos corações. Saiu de lá frustrado.
Decidiu que, a partir daquele momento, quem não comparecesse à celebração seria marcado como infiel, e seria preso em sua própria casa, e só poderia sair para trabalhar, e nada mais poderia fazer.
O presidente enfim se mostrou um ditador. Mas não deixaria de usar o título democrático. A cidade estava sitiada, afinal.

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