Era das Conseqüências: A Batalha de Learsi

  • Chapter 9, 36 de Burocracia de 7243 Nossa Senhora

O Grande dia, que se aproxima... As naves começam a chegar em Learsi

As naves discordianas chegavam de todas as partes do universo.
O Grande dia.
As naves discordianas desembarcavam em um lugar muito distante das cidades de Learsi, planeta descoberto há pouco menos de dois séculos, tempo não suficiente para ocupar toda a superfície do planeta, embora ela já fosse conhecida.
No dia marcado para a chegada das primeiras naves, o acampamento foi construídos pelos primeiros a chegarem, e novas naves chegavam a todos os minutos, vindas de diversas cabalas discordianas e sociedades discordianas universais pelo universo.
No final do dia, os reverendos do universo ficaram sabendo do sucesso das primeiras operações. Reverendo Kalisti também soube.


- Vamos brindar o primeiro dos diversos sucessos!
Lorde, Berto e Andreah brindavam porque sabiam que o desembarque havia sido um sucesso.
- Nós nos esquecemos que Learsi era um planeta habitado há pouco tempo, lembram-se? Chegamos a cogitar um ataque aéreo, que ridículo!
- O que é uma pena, pois um ataque aéreo seria delicioso de se ver, não acha?
- É, mas talvez não fosse tão bem sucedido.
- Um brinde às batalhas!
- Um brinde à Éris!
- Um brinde à Discórdia!
- Um brinde à liberdade!
- Um brinde ao cachorro-quente!
Lorde e Berto olharam para Andreah.
- Que foi? Faz tempo que eu não como. E olha que em qualquer cabala tem de graça!
Eles riram.


Ariadno estava em sua sala.
Quieto.
Não podia acreditar no que estava vendo.
Há 4 dias, uma nave havia saído de Learsi com uma missão importantíssima, vital para a continuidade da República de Learsi, mas a nave foi interceptada, e ela voltou com um dado que mudava tudo.
Naves inimigas.
Muitas. De todos os lados.
Isso levou Ariadno a repensar sua estratégia. Ele jamais supôs que suas atitudes em um pequeno planeta chamado Z-20, pequeno e recente, tivessem tamanha repercussão.
Mas tiveram.
A Sociedade Discordiana Universal se preocupou com o planeta e declarou guerra. Ariadno jamais pensou que as forças discordianas fossem tão grandes. Ele era tolo, ou melhor, louco, por subestimar uma instituição que venceu a maior batalha de todos os tempos até então (A Batalha da Luz) e se manteve como guardiã de um sistema não sistematizado durante milênios, sem ameaças à hegemonia da falta de hegemonia.
Diante de si Caracinza, o novo, tinha uma projeção holográfica, que mostrava o acampamento discordiano, formado no começo da manhã. Já era noite, mas era possível ver centenas de discordianos, e embora não fosse possível precisar as centenas, o exército era de tamanho similar ao exército de Learsi, que já beirava o primeiro milhar.
Ariadno esfregava as mãos freneticamente. A perna tremendo. O acampamento estava ali, naves chegando de tempo em tempo, cada vez mais cavaleiros discordianos...
Cavaleiros discordianos significava conhecimento, sabedoria. Mais do que isso, porque isso não serviria para os propósitos bélicos, mas significava conhecimento tático, conhecimento estratégico. Ainda mais. Significava treinamento, perícia, experiência. Coisa que o exército de Learsi não tinha.
Mas Ariadno buscou tranqüilizar a si mesmo. Afinal, se o exército de Learsi nunca lutou uma guerra, exceto alguns dos primeiros que realizaram a revolução republicana, tampouco o grupo discordiano teve êxito em uma guerra de verdade, porque das guerras o universo se manteve afastado por um longo tempo...
Ariadno ficou mais tranqüilo. Sabia que não seria fácil derrotar os discordianos, mas essa linha de pensamento o agradava. Ganhou confiança com aquilo.


- Reverendo, as naves estão chegando... O que acha que vai acontecer?
- Está me pedindo pra prever o futuro, Amada? A caocientista aqui é você.
Kalisti e Amada discutiam sobre o futuro do universo, ou o futuro breve, no mínimo.
- O caômetro tem andado muito esquisito. Instável. Ele está agindo a longo prazo. Está tendo um comportamento "histórico", como os caocientistas dizem.
- Histórico?
- Sim. Isso significa que só podemos interpretá-lo assim que as coisas que ele previu acontecerem. Assim podemos saber do que se tratava e ainda haverá um pequeno tempo futuro onde aquelas previsões ainda surtem efeito.
- Ah...
- Mas enfim... - continuou Amada - você não respondeu à minha pergunta.
Kalisti pensou um pouco.
- Eu acho que os discordianos ganham. Mas isso é só achismo. É coisa de torcedor de futebol. Não posso dar uma opinião muito embasada.
- Relaxe, reverendo. Não estou aqui hoje por causa de fim de mundo ou por causa de opiniões embasadas.
Amada sempre achou estranho o jeito sério de ser discordiano de Kalisti. Talvez seus estudos e sua convivência com mais livros e máquinas do que humanos o tenha deixado assim, "embasado" demais. Mas o discordianismo permitia que alguém fosse discordiano em relação ao discordianismo, então estava tudo bem.
Mas não deixava de ser estranho.
Kalisti abriu a guarda.
- Então está aqui por quê?
Já era noite e Amada tinha ficado até depois que o Reverendo conversou com alguns cavaleiros no acampamento.
- Estou aqui pela sua companhia. Gosto de estar com você, reverendo. Você é legal, sabe.
Kalisti sorriu discretamente, abaixou seu olhar.
- Só precisa aprender a ser um pouquinho mais discordiano.


- Eu não tenho medo algum, sinceramente - declarava Andreah.
- Eu tenho. Sempre tive. - disse Lorde.
Lorde, Berto e Andreah discutiam sobre medo de morrer. Eles já enfrentavam muitas situações de risco nas missões, de forma que eles ainda não tinham reparado que eles estavam em guerra. O medo de morrer não era muito diferente daquele que eles enfrentavam sempre que iam para uma missão.
- Uma vez vi um filme... Digo, li sobre ele, mas ele era muito... - começou Berto -... Antigo, muito antigo mesmo.
- De quando?
- Já sei! Algum dos primeiros do diretor Uno Amaredos, acertei?
- Nossa! - disse Berto - esse é realmente antigo, mas estou falando de uma raridade. Da época que filmes eram estáticos, vídeos em 2D.
Lorde e Andreah se olharam.
- Mas Berto... Quando o cinema foi 2D?
- Centenas de anos antes da batalha da luz. Segundo o que li, as pessoas se sentavam em uma sala escura, e um projetor lançava as imagens em seqüência em um grande telão.
- Nossa...
- Que sem graça - disse Andreah.
- Para nós que somos da geração das 51 sensações, parece sem graça, mas é fascinante o modo como eles assistiam a filmes... Mas enfim, deixem-me contar a minha história...
"Era sobre o espaço. Naquela época eles já faziam idéia da imensidão do espaço e já o imaginavam colonizado, observem. Nessa história, a paz e a ordem no universo eram protegidas por uma ordem de cavaleiros, assim como nós, chamados cavaleiros Jedi".
"Esses cavaleiros usavam uma espécie de energia, chamada de 'A Força', para manipular objetos, enfim, não sei dizer direito, mas sei dizer que A Força era realmente legal".
"Mas essa Força tinha dois lados: um lado bom e um lado ruim. Um lado da luz e um lado sombrio."
- Típico dos maniqueístas da época.
- Deixa ele terminar! - advertiu Andreah.
"Então, os que invocavam o lado negro da força eram os cavaleiros Sith, e aqueles que usavam o lado da luz da força eram os cavaleiros Jedi. O Mestre dos cavaleiros Jedi era chamado de Mestre Yoda. Eu ouvi uma frase dele em que penso muito".
"Ele falou uma vez para um menino que queria se tornar cavaleiro Jedi: Eu sinto medo em você. Então o menino perguntou o que isso tinha a ver com o treinamento e tudo o mais".
- Eu também perguntaria.
- Pssssst!
"Então Yoda respondeu: Tudo! Medo é o caminho para a frustração. Frustração é o caminho para a raiva. Raiva é o caminho para o ódio. Ódio é o caminho para o lado negro da força".
Silêncio.
- Só isso? - perguntou Andreah.
- Como "só isso"?? É um grande pensamento para se pensar.
- Berto, você realmente foi muito relapso aos estudos discordianos. Isso é uma coisa que o discordianismo já sabe, mas não considera o "lado negro da força", porque não considera o maniqueísmo uma coisa boa. Aliás, considera uma coisa péssima. Além do que, isso se transforma, no final das contas, em budismo, uma religião do oriente da Terra antes da batalha da luz. Quer dizer desapego a tudo. Medo é natural. É até bom. O importante é saber conviver com ele.
- Berto, se um dia você for assaltado por esses pensamentos novamente, lembre-se de que psicologia é um estudo de quem não entende de psicologia. O conhecimento liberta, e nós não precisamos ser escravos de nós mesmos se conhecermos a nós mesmos.
- É, talvez eu tenha perdido uma conexão entre uma coisa e outra...
- Mas e quanto a você, Berto? - perguntou Lorde - tem medo de morrer na guerra?
- Não. Confio no meu taco! - disse ele, brincalhão. - Confiança nunca é demais.
Depois disso, Lorde, Berto e Andreah ficaram se olhando. Silêncio. Parece que uma conversa como aquela edificava pessoas fortes, verdadeiros guerreiros, mas segundos de silêncio e olhares intensos destruíam tudo e estava revelado o núcleo de cada um. Medo. Ali havia muito medo.
- Se eu morrer na guerra... Eu vou querer voltar? - se perguntou Andreah, de olhos fechados.
- O que é isso, treinando pra quando precisar tomar essa decisão? - riu Berto.
- Não, é um exercício de eterno retorno. O que você nos diz, Andreah?
- Eu acho que sim. Vivi o suficiente e de jeito suficiente para estar feliz comigo mesma. Acho que não mudaria nada.
- Já é um grande começo. Mas e quanto a viver de novo, tudo de novo, do mesmo modo?
Andreah pensou mais um pouco.
- Não sei.
Depois dessa frase, que despertou em Lorde um sentimento estranho, incompreensível (ainda bem, porque assim é melhor), Andreah olhou para ele. Mas não foi qualquer olhar. Foi um olhar perdido, e ao mesmo tempo decidido. O olhar de uma adulta que assim como ele se tornou uma grande guerreira, mas ainda conservava em sua íris alguma coisa de quando era a criança que Lorde não conheceu.
Foi um olhar de quase súplica, pelo que Lorde não sabia. Mas um olhar que cortou qualquer linha de raciocínio e dissipou qualquer névoa. Lorde nada pôde fazer; aquele momento se eternizou nele e um calor se espalhou por ele. O que era aquilo?
Mas acabou. Foi apenas um rápido olhar. Quão rápido havia sido? Um instante, dois? Mas como ele pareceu ter demorado, como pareceu que nunca mais iria terminar... Pare, Lorde! As coisas têm fim. "Parabéns", pensou. Você acabou de viver algo único.
Lorde dormiu sorrindo aquela noite.

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