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Chapter 11, 43 de Burocracia de 7243 Nossa Senhora
- written 16th Jul 2007 by peterson0a0
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A Batalha de Learsi, propriamente dita
Tags : adventureZamuthaLordeBertoAndreahAriadnoKalistiAmadaJohnnyErisIon
No trajeto ao longo dos campos e colinas rumo à capital de Learsi, houve uma surpresa:
Soldados do governo se encontraram com os cavaleiros discordianos no caminho.
- Não há dúvida de que são eles! - sussurrou Zamutha para um cavaleiro discordiano ao seu lado. Lorde ouviu.
De onde estavam, era possível ver, a mais ou menos uns 700 metros, um grande exército vestido de branco e vermelho. Os discordianos vestiam-se de pretos, ainda que alguns vestissem amarelo, azul, e um estava vestido de palhaço.
Eram mais de 1500 cavaleiros discordianos, contra menos de 1000 soldados do governo, segundo as estimativas mais otimistas.
Depois de algum momento de surpresa, era visível que a primeira batalha da guerra se desenharia ali mesmo, de forma inesperada. Não havia como fugir.
Ariadno então subiu em uma pedra que estava próxima à formação dos soldados do governo para discursar para suas tropas. Era hora da motivação. Era sinal de que a batalha seria ali mesmo, e se o inimigo decidiu, não havia escolha para os cavaleiros.
- Ouçam soldados! - Ariadno parou e olhou para a mancha negra de discordianos - Eles estão em maior número, mas jamais se esqueçam de que o nosso grande senhor sempre nos acompanhará! - pausa para reflexão. O silêncio reinava e a atenção era absoluta. Muitos ali tremiam. A primeira batalha de suas vidas.
- Reinamos uma vez, reinaremos para sempre! Conquistamos nosso reino e lutamos para sobreviver, então agora iremos lutar... Por isso... NOVAMENTE! Não vamos deixar que eles destruam o que levamos milênios para recuperar. VITÓRIA!
Os soldados repetiam, tentando se mostrar confiantes. Não estavam. Entretanto, havia algo de mágico na palavra vitória. Ariadno gritava repetidamente. "VITÓRIA! VITÓRIA! VITÓRIA!", e os soldados berravam, entusiasmados.
O barulho do entusiasmo learsiano incomodava os discordianos.
- Vamos fazer BARULHOOOO!!! - Gritou alguém da multidão.
O coro de vozes discordianas gritando qualquer coisa que fosse ao mesmo tempo ofuscou o brilho da coragem de Learsi no mesmo instante. Alguns segundos depois, o silêncio era total.
As duas tropas se calaram, e ainda que não fosse possível ver os olhos de alguém, é como se os dois exércitos se olhassem nos olhos. Vendo quem abaixava a cabeça primeiro. Quem desistiria. Quem seria fraco.
Amada verificava cuidadosamente os resultados do caômetro. Ela olhou uma última vez para as anotações dos dias anteriores, e então percebeu uma minúcia, um detalhe, que valia toda a interpretação histórica do caômetro. Saiu correndo de sua sala.
Os soldados de Learsi sacaram e carregaram suas armas.
Os cavaleiros discordianos sacaram suas espadas.
A linha de frente de Learsi ajoelhou, e a segunda linha da formação cerrada carregou as armas, como o ordenado. O comandante conferia se estava tudo pronto.
Cada discordiano tirava do bolso do moletom preto que usava uma bola rósea, de diâmetro pequeno. Cada cavaleiro discordiano colocava a bala na boca, mordia-a e a engolia logo em seguida.
Todos olhavam para os lados, procurando saber se estava tudo bem com todos.
- Preparem-se para o ataque! Seremos implacáveis! - bradava Ariadno. - Ataquem com toda a força no combate corpo-a-corpo, e atirem com precisão!
Lorde levantou sua espada e gritou:
- Todos saúdam Discórdia!
Imediatamente todos fizeram o mesmo, e proclamaram:
- Salve Éris!
Todos aguardavam ansiosos a partida dos cavaleiros.
Ariadno perguntou a um conselheiro, que estava ao seu lado:
- Por que os discordianos preferem espadas, tanto tempo depois da invenção das armas?
- Não sei - respondeu o conselheiro - mas ouvi dizer que depois da batalha da luz os discordianos fizeram de armas acessórios opcionais, pois preferiam as espadas que faziam das batalhas embates justos e mais divertidos.
- Ah... - parece que Ariadno não tinha entendido as aplicações práticas disso, mas não havia mais tempo para entender loucos, ele pensou.
Amada corria pelas ruas de Rio Claro, na Terra, para chegar até a Sociedade Discordiana Universal. O caderno embaixo do braço, anotações que diziam muito a quem quisesse ouvir.
E Kalisti tinha que ouvir.
Mais uma vez os discordianos olhavam para o lado.
- 1! - Alguém gritou do meio da multidão.
- 2! - Imediatamente todos repetiram.
- 3!
- 4!
- 5! - O coro era geral.
- 6!
- 7!
- 8!
- 9!
- 10!
- 11!
Ariadno assistia ao coro de vozes discordianas gritando números. "12... 13... 14...". Quando aquilo iria parar?
- 23!!!
O chão tremia. Os cavaleiros discordianos começaram a se mover, deixando seus lugares e correndo alucinadamente em direção aos soldados inimigos.
Espada em riste, capuz sobre a cabeça, Arma para emergências. O Caos no coração. Em cada ação tomada por cada um.
Eles estavam se aproximando. Ariadno recuou para ficar atrás da tropa.
Quando os Discordianos chegaram perto o suficiente dos soldados de Learsi, Ariadno ordenou:
- ATIREM!!!
Uma rajada de balas explosivas partiu das armas roubadas da cabala discordiana e da indústria metalúrgica de Learsi rumo aos cavaleiros, que estavam muito próximos.
Nenhuma explosão. Nenhum ferido.
Eles continuavam avançando... Chegavam mais perto... Mais perto...
A linha de frente dos soldados não teve sequer tempo de sacar a espada.
As linhas de frente colidiram entre si.
A partir daí as armas foram utilizadas mais algumas vezes, mas os soldados perceberam que nenhuma surtia efeito. Eles passaram a usar a espada, e a batalha corpo-a-corpo foi realizada.
A frente discordiana foi implacável. Foi como um rolo compressor. Passou por cima da primeira linha do exército do governo com muita facilidade, pois estava preparada para repelir as balas explosivas e desativar suas propriedades combustivas, por causa de um segredo que os cavaleiros discordianos têm, como carta na manga.
A partir daí a batalha ficou quente. Os soldados lutavam em batalhas corpo-a-corpo e aos poucos a hegemonia dos discordianos foi se consolidando.
A experiência dos cavaleiros era notável e isso fazia a diferença. Soldados caíam cada vez mais rápido na batalha.
Lorde estava lutando contra um soldado, quando viu que Andreah estava tendo problemas para lutar com dois soldados. Um deles parecia experiente.
Berto lutava contra um soldado, mas este lutava com duas espadas. Berto tinha habilidade, conseguia resistir aos ataques, mas não conseguia espaço para atacar.
Logo uma explosão em um local próximo estremeceu o chão e ele se desequilibrou. Foi só o que Berto precisou para cravar a espada no peito do soldado, vulnerável.
A explosão havia feito Andreah cair. O soldado estava prestes a matar Andreah, quando Lorde se livrou do soldado que estava lutando e partiu para defender Andreah.
Um soldado interferiu e Lorde teve que se defender. Ele era mais alto e mais forte, mas Lorde tranqüilizou-se ao ver que Andreah conseguira se virar para escapar ao ataque do soldado.
A explosão havia vindo da artilharia do governo. Ariadno já estava sobre sua moto de combate, e dava instruções para que os soldados se separassem, levando os combates individuais para o mais longe possível, separando a densa zona de conflito.
Mas as ordens estavam difíceis de serem seguidas; neste momento os discordianos já tinham certa vantagem contra os soldados e usavam desta vantagem para derrotar cada vez mais soldados. Mas a tática inicialmente deu certo.
- Unir! Unir! - gritou um cavaleiro discordiano no meio da batalha. Os soldados discordianos passaram a procurar outros cavaleiros para ajuda. Não que precisassem, mas dessa forma cada grupo procurava outros grupos. Isso fez com que a batalha tomasse nova configuração.
Os soldados do governo cercavam uma mancha de cavaleiros no centro do campo de batalha.
Havia máquinas de combate do governo que se preparavam para atirar contra a concentração discordiana.
- SEPARAR!
As bombas da artilharia do governo não atingiram ninguém porque a estratégia do unir-separar dos discordianos havia funcionado: diante da superioridade técnica dos soldados, seria possível correr contra o cerco e escapar dele, fazendo dos cavaleiros discordianos o cerco contra uma mancha branca e vermelha no centro do campo.
Uma outra explosão chamou a atenção de todos. A artilharia discordiana, escondida atrás das colinas na direção do acampamento, havia surgido e destruído algumas máquinas do governo. A batalha agora era de canhões contra canhões. E era um grande espetáculo.
A atenção dos soldados foi consumida. Agora dois círculos se desenhavam no campo de batalha, o círculo branco dentro do circulo preto. Era a configuração ideal. Todos sabiam o que fazer.
Enquanto todos os cavaleiros sacavam suas armas para atirar nos quase derrotados soldados do governo, Lorde se aproximou de Andreah e perguntou:
- Tudo bem?
- Sim! - Ela gritou, sem tirar os olhos de seus inimigos.
- AGORA! - Alguém berrou.
A rajada de tiros de decomposição quântica atingiu muitos soldados. Outros haviam se jogado no chão. Muitos caíram desmaiados no chão, daqui a algum tempo mortos.
A grande maioria dos cavaleiros discordianos havia sobrevivido, contra menos de uma centena de soldados do governo. Armas em punho, os cavaleiros discordianos fecharam o cerco. Era o fim. Os soldados se rendiam.
A artilharia do governo havia sido destruída. Apenas alguns canhões anti-matéria discordianos deveriam estar danificados.
Mas ainda não era o fim. Faltava o principal.
Caracinza, o novo. Ou Ariadno, como preferir.
O motor acordou os cavaleiros. Muitos saíram para o topo das colinas, mas Caracinza usava sua moto de combate. Estava muito veloz para ser alcançado.
- Kalisti, você não está entendendo! Está na cara que vamos ganhar essa batalha, mas o caos está dizendo que não!
- Mas como não, Amada! Do que está falando! Seria uma incrível falta de sorte ou de competência perdermos essa batalha.
- Kalisti, acredite em mim, alguma coisa vai dar terrivelmente errado.
Ainda que Caracinza tivesse escapado, os cavaleiros estavam em festa. Eles gritavam, faziam festa, pulavam, se abraçavam. Haviam vencido a primeira batalha.
Mas Lorde não estava tranqüilo.
Lorde subiu correndo a colina em direção à artilharia. Éris, Íon, Berto e Andreah foram atrás dele para saber o que estava acontecendo.
- Johnny, preciso de uma moto de combate.
- Lorde, o que está pensando em fazer? - perguntou Éris.
- Eu vou atrás de Ariadno.
- Temos uma aqui movida à anti-matéria, mas é única. Não temos outras assim rápidas, apenas do mesmo modelo que a de Ariadno.
- Eu vou usar a mais rápida. - determinou Lorde - por favor, não tentem me impedir.
- Não vamos tentar te impedir, vamos junto com você. Vamos apenas chegar mais tarde. - disse Andreah, já tomando o controle de uma das motos.
Berto e Íon já usavam as outras.
Éris e Lorde se olhavam. Profundamente.
- Você quer glória, não quer, Lorde?
- É perigoso, Éris. Ele não pode ficar livre. Pode escapar. Alguém tem que ir atrás dele.
Mais alguns segundos. Aquele olhar que comunica muito. Dessa vez, a comunicação foi tensa.
- Vá, herói. Faça o que ninguém mais quer fazer. Vamos logo atrás de você. - disse Éris.
Éris tomou os controles da moto remanescente. Lorde usou a moto anti-matéria.
E os cinco foram, Lorde com uma velocidade estonteantemente mais rápida, rumo ao caminho que Ariadno havia trilhado em sua fuga, enquanto o resto dos cavaleiros assistiam, sem saber o que estava acontecendo.
- Amada, nossas tropas venceram! - disse Kalisti, animado. - Amada, você estava errada! Não fica feliz por isso?
- Não, Kalisti, não fico. Ainda há mais uma batalha para vencer.
- Ah, sim. Provavelmente há alguns soldados remanescentes na capital para serem derrotados. Mas nada que seja muito problemático.
- Caracinza está morto?
- Não. Ele fugiu.
Amada levantou-se.
- Então alguém tem que persegui-lo. E rápido. Ele pode tentar fugir do planeta.
- É exatamente o que Lorde está fazendo, pelo que me disseram.
Amada abraçou Kalisti.
- Kalisti... Sinto que o fim não será o fim.
- Isso é profundo... - Kalisti riu.
- Não ria. Não é engraçado.
Lorde tentava manter sua mente concentrada. A moto de combate era extremamente rápida, e era preciso diminuir a velocidade na hora certa.
Ele seguia o rastro da moto de Ariadno. Viu um desvio na rota. Baixou a velocidade.
Seguiu o rastro até uma caverna, no meio de um vasto campo. Ainda estavam longe da cidade.
- Por quê? POR QUE! - Ariadno chorava.
Lorde se aproximava com cuidado do interior da caverna. As luzes vinham de velas. Entre duas delas, uma imagem de um rosto. Uma imagem lapidada, velha, gasta. Era de um homem barbudo, olhos tristes. Nada mais de notável. Apenas mais um homem.
Ariadno estava ajoelhado. Chorava diante da imagem.
Lorde desembainhou a espada. Ariadno reconheceu o barulho.
- O que faz aqui... Profanando meu templo, seu infiel maldito... - disse Ariadno. Ele voltou seus olhos da parede para Lorde, que o observava com serenidade. Os olhos de Ariadno estavam vermelhos, pareciam querer estourar.
- Caracinza, é o fim.
Ariadno fechou os olhos. Voltou-se para a parede. As mãos apoiando-se nas rochas.
- Sua república e sua religião chegaram ao fim.
- É assim que os discordianos são conhecidos... Pela sua luta pela liberdade. Que bonito isso.
- Não precisaríamos lutar pela liberdade de certas pessoas, se não houvesse perversos como vocês prontos para exercer o poder sobre as pessoas.
- Do que você...
- QUIETO! - Ordenou Lorde, mostrando toda sua raiva. Ariadno se calou. - Como você ousa tentar se defender? Suas atitudes são indefensáveis! Não existe bem mais supremo do que a vida, e a vida não é nada sem liberdade.
- Palavras, só palavras...
- CALADO! - Lorde encostou a espada na nuca de Ariadno. - Eu desprezo você, Caracinza, o novo. Você é um verme, um humano fraco, que quer ser poderoso através da dominação de outras mentes fracas!
O som de motos de combates podia ser ouvido fora da caverna.
- Você só quer rastejar atrás de outros, mas você é pior, você é muito pior... Você quer corromper, você quer dominar, você quer fazer com que os outros rastejem por você... Porque essa é sua diversão, esse é o seu lazer, essa é a sua razão de existir: ver que existem pessoas que podem ir mais abaixo do que você jamais foi!
Berto, Éris, Andreah e Íon chegaram até o interior da caverna.
- Não se exima de culpa de matar pessoas inocentes, Caracinza. Todos têm escolha, mas você é aquele que vem se aproveitar daqueles que não têm conhecimento para contar-lhes mentiras, e incutir pensamentos dogmáticos. Você não é o único responsável, mas é o idealizador, e você ainda que não seja totalmente culpado, é a fonte dessa ideologia que pôs o universo em guerra pela primeira vez em milênios. Você sabe por que existem guerras, Caracinza?
Era humilhação. Lorde gritava, ainda que não houvesse necessidade.
- Existem conflitos porque as pessoas desejam sempre ter o prazer de tirar algum direito de alguém. Desejam testar a reação das pessoas. Desejam incomodar, desejam mandar, desejam influenciar, desejam controlar tudo e todos à sua volta. E você, sabe o que fez? Tirou diversos direitos humanos aos cidadãos de Z-20. Isso motivou a sociedade discordiana à guerra. Que fique bem claro. Não deixaríamos, nenhum de nós, que alguém se colocasse contra a liberdade de qualquer um.
Caracinza continuava ouvindo, atentamente. Todos ouviam. Nenhum cochicho. Nenhum ruído. Apenas o bruxulear das velas.
- Admita que está errado, Ariadno.
Ariadno olhou para Lorde com ódio. Seus olhos vermelhos mandavam uma mensagem clara: estou decidido a não admitir meus erros.
- Diga! - berrava Lorde.
Ariadno fez sinal que não.
- Diga! É a sua...
Um tiro.
Ariadno estava... Morto.
Éris estava com sua arma em punho. Lorde se voltou para ela, sério.
- Chega, Lorde. Seu show acabou.
Soldados do governo se encontraram com os cavaleiros discordianos no caminho.
- Não há dúvida de que são eles! - sussurrou Zamutha para um cavaleiro discordiano ao seu lado. Lorde ouviu.
De onde estavam, era possível ver, a mais ou menos uns 700 metros, um grande exército vestido de branco e vermelho. Os discordianos vestiam-se de pretos, ainda que alguns vestissem amarelo, azul, e um estava vestido de palhaço.
Eram mais de 1500 cavaleiros discordianos, contra menos de 1000 soldados do governo, segundo as estimativas mais otimistas.
Depois de algum momento de surpresa, era visível que a primeira batalha da guerra se desenharia ali mesmo, de forma inesperada. Não havia como fugir.
Ariadno então subiu em uma pedra que estava próxima à formação dos soldados do governo para discursar para suas tropas. Era hora da motivação. Era sinal de que a batalha seria ali mesmo, e se o inimigo decidiu, não havia escolha para os cavaleiros.
- Ouçam soldados! - Ariadno parou e olhou para a mancha negra de discordianos - Eles estão em maior número, mas jamais se esqueçam de que o nosso grande senhor sempre nos acompanhará! - pausa para reflexão. O silêncio reinava e a atenção era absoluta. Muitos ali tremiam. A primeira batalha de suas vidas.
- Reinamos uma vez, reinaremos para sempre! Conquistamos nosso reino e lutamos para sobreviver, então agora iremos lutar... Por isso... NOVAMENTE! Não vamos deixar que eles destruam o que levamos milênios para recuperar. VITÓRIA!
Os soldados repetiam, tentando se mostrar confiantes. Não estavam. Entretanto, havia algo de mágico na palavra vitória. Ariadno gritava repetidamente. "VITÓRIA! VITÓRIA! VITÓRIA!", e os soldados berravam, entusiasmados.
O barulho do entusiasmo learsiano incomodava os discordianos.
- Vamos fazer BARULHOOOO!!! - Gritou alguém da multidão.
O coro de vozes discordianas gritando qualquer coisa que fosse ao mesmo tempo ofuscou o brilho da coragem de Learsi no mesmo instante. Alguns segundos depois, o silêncio era total.
As duas tropas se calaram, e ainda que não fosse possível ver os olhos de alguém, é como se os dois exércitos se olhassem nos olhos. Vendo quem abaixava a cabeça primeiro. Quem desistiria. Quem seria fraco.
Amada verificava cuidadosamente os resultados do caômetro. Ela olhou uma última vez para as anotações dos dias anteriores, e então percebeu uma minúcia, um detalhe, que valia toda a interpretação histórica do caômetro. Saiu correndo de sua sala.
Os soldados de Learsi sacaram e carregaram suas armas.
Os cavaleiros discordianos sacaram suas espadas.
A linha de frente de Learsi ajoelhou, e a segunda linha da formação cerrada carregou as armas, como o ordenado. O comandante conferia se estava tudo pronto.
Cada discordiano tirava do bolso do moletom preto que usava uma bola rósea, de diâmetro pequeno. Cada cavaleiro discordiano colocava a bala na boca, mordia-a e a engolia logo em seguida.
Todos olhavam para os lados, procurando saber se estava tudo bem com todos.
- Preparem-se para o ataque! Seremos implacáveis! - bradava Ariadno. - Ataquem com toda a força no combate corpo-a-corpo, e atirem com precisão!
Lorde levantou sua espada e gritou:
- Todos saúdam Discórdia!
Imediatamente todos fizeram o mesmo, e proclamaram:
- Salve Éris!
Todos aguardavam ansiosos a partida dos cavaleiros.
Ariadno perguntou a um conselheiro, que estava ao seu lado:
- Por que os discordianos preferem espadas, tanto tempo depois da invenção das armas?
- Não sei - respondeu o conselheiro - mas ouvi dizer que depois da batalha da luz os discordianos fizeram de armas acessórios opcionais, pois preferiam as espadas que faziam das batalhas embates justos e mais divertidos.
- Ah... - parece que Ariadno não tinha entendido as aplicações práticas disso, mas não havia mais tempo para entender loucos, ele pensou.
Amada corria pelas ruas de Rio Claro, na Terra, para chegar até a Sociedade Discordiana Universal. O caderno embaixo do braço, anotações que diziam muito a quem quisesse ouvir.
E Kalisti tinha que ouvir.
Mais uma vez os discordianos olhavam para o lado.
- 1! - Alguém gritou do meio da multidão.
- 2! - Imediatamente todos repetiram.
- 3!
- 4!
- 5! - O coro era geral.
- 6!
- 7!
- 8!
- 9!
- 10!
- 11!
Ariadno assistia ao coro de vozes discordianas gritando números. "12... 13... 14...". Quando aquilo iria parar?
- 23!!!
O chão tremia. Os cavaleiros discordianos começaram a se mover, deixando seus lugares e correndo alucinadamente em direção aos soldados inimigos.
Espada em riste, capuz sobre a cabeça, Arma para emergências. O Caos no coração. Em cada ação tomada por cada um.
Eles estavam se aproximando. Ariadno recuou para ficar atrás da tropa.
Quando os Discordianos chegaram perto o suficiente dos soldados de Learsi, Ariadno ordenou:
- ATIREM!!!
Uma rajada de balas explosivas partiu das armas roubadas da cabala discordiana e da indústria metalúrgica de Learsi rumo aos cavaleiros, que estavam muito próximos.
Nenhuma explosão. Nenhum ferido.
Eles continuavam avançando... Chegavam mais perto... Mais perto...
A linha de frente dos soldados não teve sequer tempo de sacar a espada.
As linhas de frente colidiram entre si.
A partir daí as armas foram utilizadas mais algumas vezes, mas os soldados perceberam que nenhuma surtia efeito. Eles passaram a usar a espada, e a batalha corpo-a-corpo foi realizada.
A frente discordiana foi implacável. Foi como um rolo compressor. Passou por cima da primeira linha do exército do governo com muita facilidade, pois estava preparada para repelir as balas explosivas e desativar suas propriedades combustivas, por causa de um segredo que os cavaleiros discordianos têm, como carta na manga.
A partir daí a batalha ficou quente. Os soldados lutavam em batalhas corpo-a-corpo e aos poucos a hegemonia dos discordianos foi se consolidando.
A experiência dos cavaleiros era notável e isso fazia a diferença. Soldados caíam cada vez mais rápido na batalha.
Lorde estava lutando contra um soldado, quando viu que Andreah estava tendo problemas para lutar com dois soldados. Um deles parecia experiente.
Berto lutava contra um soldado, mas este lutava com duas espadas. Berto tinha habilidade, conseguia resistir aos ataques, mas não conseguia espaço para atacar.
Logo uma explosão em um local próximo estremeceu o chão e ele se desequilibrou. Foi só o que Berto precisou para cravar a espada no peito do soldado, vulnerável.
A explosão havia feito Andreah cair. O soldado estava prestes a matar Andreah, quando Lorde se livrou do soldado que estava lutando e partiu para defender Andreah.
Um soldado interferiu e Lorde teve que se defender. Ele era mais alto e mais forte, mas Lorde tranqüilizou-se ao ver que Andreah conseguira se virar para escapar ao ataque do soldado.
A explosão havia vindo da artilharia do governo. Ariadno já estava sobre sua moto de combate, e dava instruções para que os soldados se separassem, levando os combates individuais para o mais longe possível, separando a densa zona de conflito.
Mas as ordens estavam difíceis de serem seguidas; neste momento os discordianos já tinham certa vantagem contra os soldados e usavam desta vantagem para derrotar cada vez mais soldados. Mas a tática inicialmente deu certo.
- Unir! Unir! - gritou um cavaleiro discordiano no meio da batalha. Os soldados discordianos passaram a procurar outros cavaleiros para ajuda. Não que precisassem, mas dessa forma cada grupo procurava outros grupos. Isso fez com que a batalha tomasse nova configuração.
Os soldados do governo cercavam uma mancha de cavaleiros no centro do campo de batalha.
Havia máquinas de combate do governo que se preparavam para atirar contra a concentração discordiana.
- SEPARAR!
As bombas da artilharia do governo não atingiram ninguém porque a estratégia do unir-separar dos discordianos havia funcionado: diante da superioridade técnica dos soldados, seria possível correr contra o cerco e escapar dele, fazendo dos cavaleiros discordianos o cerco contra uma mancha branca e vermelha no centro do campo.
Uma outra explosão chamou a atenção de todos. A artilharia discordiana, escondida atrás das colinas na direção do acampamento, havia surgido e destruído algumas máquinas do governo. A batalha agora era de canhões contra canhões. E era um grande espetáculo.
A atenção dos soldados foi consumida. Agora dois círculos se desenhavam no campo de batalha, o círculo branco dentro do circulo preto. Era a configuração ideal. Todos sabiam o que fazer.
Enquanto todos os cavaleiros sacavam suas armas para atirar nos quase derrotados soldados do governo, Lorde se aproximou de Andreah e perguntou:
- Tudo bem?
- Sim! - Ela gritou, sem tirar os olhos de seus inimigos.
- AGORA! - Alguém berrou.
A rajada de tiros de decomposição quântica atingiu muitos soldados. Outros haviam se jogado no chão. Muitos caíram desmaiados no chão, daqui a algum tempo mortos.
A grande maioria dos cavaleiros discordianos havia sobrevivido, contra menos de uma centena de soldados do governo. Armas em punho, os cavaleiros discordianos fecharam o cerco. Era o fim. Os soldados se rendiam.
A artilharia do governo havia sido destruída. Apenas alguns canhões anti-matéria discordianos deveriam estar danificados.
Mas ainda não era o fim. Faltava o principal.
Caracinza, o novo. Ou Ariadno, como preferir.
O motor acordou os cavaleiros. Muitos saíram para o topo das colinas, mas Caracinza usava sua moto de combate. Estava muito veloz para ser alcançado.
- Kalisti, você não está entendendo! Está na cara que vamos ganhar essa batalha, mas o caos está dizendo que não!
- Mas como não, Amada! Do que está falando! Seria uma incrível falta de sorte ou de competência perdermos essa batalha.
- Kalisti, acredite em mim, alguma coisa vai dar terrivelmente errado.
Ainda que Caracinza tivesse escapado, os cavaleiros estavam em festa. Eles gritavam, faziam festa, pulavam, se abraçavam. Haviam vencido a primeira batalha.
Mas Lorde não estava tranqüilo.
Lorde subiu correndo a colina em direção à artilharia. Éris, Íon, Berto e Andreah foram atrás dele para saber o que estava acontecendo.
- Johnny, preciso de uma moto de combate.
- Lorde, o que está pensando em fazer? - perguntou Éris.
- Eu vou atrás de Ariadno.
- Temos uma aqui movida à anti-matéria, mas é única. Não temos outras assim rápidas, apenas do mesmo modelo que a de Ariadno.
- Eu vou usar a mais rápida. - determinou Lorde - por favor, não tentem me impedir.
- Não vamos tentar te impedir, vamos junto com você. Vamos apenas chegar mais tarde. - disse Andreah, já tomando o controle de uma das motos.
Berto e Íon já usavam as outras.
Éris e Lorde se olhavam. Profundamente.
- Você quer glória, não quer, Lorde?
- É perigoso, Éris. Ele não pode ficar livre. Pode escapar. Alguém tem que ir atrás dele.
Mais alguns segundos. Aquele olhar que comunica muito. Dessa vez, a comunicação foi tensa.
- Vá, herói. Faça o que ninguém mais quer fazer. Vamos logo atrás de você. - disse Éris.
Éris tomou os controles da moto remanescente. Lorde usou a moto anti-matéria.
E os cinco foram, Lorde com uma velocidade estonteantemente mais rápida, rumo ao caminho que Ariadno havia trilhado em sua fuga, enquanto o resto dos cavaleiros assistiam, sem saber o que estava acontecendo.
- Amada, nossas tropas venceram! - disse Kalisti, animado. - Amada, você estava errada! Não fica feliz por isso?
- Não, Kalisti, não fico. Ainda há mais uma batalha para vencer.
- Ah, sim. Provavelmente há alguns soldados remanescentes na capital para serem derrotados. Mas nada que seja muito problemático.
- Caracinza está morto?
- Não. Ele fugiu.
Amada levantou-se.
- Então alguém tem que persegui-lo. E rápido. Ele pode tentar fugir do planeta.
- É exatamente o que Lorde está fazendo, pelo que me disseram.
Amada abraçou Kalisti.
- Kalisti... Sinto que o fim não será o fim.
- Isso é profundo... - Kalisti riu.
- Não ria. Não é engraçado.
Lorde tentava manter sua mente concentrada. A moto de combate era extremamente rápida, e era preciso diminuir a velocidade na hora certa.
Ele seguia o rastro da moto de Ariadno. Viu um desvio na rota. Baixou a velocidade.
Seguiu o rastro até uma caverna, no meio de um vasto campo. Ainda estavam longe da cidade.
- Por quê? POR QUE! - Ariadno chorava.
Lorde se aproximava com cuidado do interior da caverna. As luzes vinham de velas. Entre duas delas, uma imagem de um rosto. Uma imagem lapidada, velha, gasta. Era de um homem barbudo, olhos tristes. Nada mais de notável. Apenas mais um homem.
Ariadno estava ajoelhado. Chorava diante da imagem.
Lorde desembainhou a espada. Ariadno reconheceu o barulho.
- O que faz aqui... Profanando meu templo, seu infiel maldito... - disse Ariadno. Ele voltou seus olhos da parede para Lorde, que o observava com serenidade. Os olhos de Ariadno estavam vermelhos, pareciam querer estourar.
- Caracinza, é o fim.
Ariadno fechou os olhos. Voltou-se para a parede. As mãos apoiando-se nas rochas.
- Sua república e sua religião chegaram ao fim.
- É assim que os discordianos são conhecidos... Pela sua luta pela liberdade. Que bonito isso.
- Não precisaríamos lutar pela liberdade de certas pessoas, se não houvesse perversos como vocês prontos para exercer o poder sobre as pessoas.
- Do que você...
- QUIETO! - Ordenou Lorde, mostrando toda sua raiva. Ariadno se calou. - Como você ousa tentar se defender? Suas atitudes são indefensáveis! Não existe bem mais supremo do que a vida, e a vida não é nada sem liberdade.
- Palavras, só palavras...
- CALADO! - Lorde encostou a espada na nuca de Ariadno. - Eu desprezo você, Caracinza, o novo. Você é um verme, um humano fraco, que quer ser poderoso através da dominação de outras mentes fracas!
O som de motos de combates podia ser ouvido fora da caverna.
- Você só quer rastejar atrás de outros, mas você é pior, você é muito pior... Você quer corromper, você quer dominar, você quer fazer com que os outros rastejem por você... Porque essa é sua diversão, esse é o seu lazer, essa é a sua razão de existir: ver que existem pessoas que podem ir mais abaixo do que você jamais foi!
Berto, Éris, Andreah e Íon chegaram até o interior da caverna.
- Não se exima de culpa de matar pessoas inocentes, Caracinza. Todos têm escolha, mas você é aquele que vem se aproveitar daqueles que não têm conhecimento para contar-lhes mentiras, e incutir pensamentos dogmáticos. Você não é o único responsável, mas é o idealizador, e você ainda que não seja totalmente culpado, é a fonte dessa ideologia que pôs o universo em guerra pela primeira vez em milênios. Você sabe por que existem guerras, Caracinza?
Era humilhação. Lorde gritava, ainda que não houvesse necessidade.
- Existem conflitos porque as pessoas desejam sempre ter o prazer de tirar algum direito de alguém. Desejam testar a reação das pessoas. Desejam incomodar, desejam mandar, desejam influenciar, desejam controlar tudo e todos à sua volta. E você, sabe o que fez? Tirou diversos direitos humanos aos cidadãos de Z-20. Isso motivou a sociedade discordiana à guerra. Que fique bem claro. Não deixaríamos, nenhum de nós, que alguém se colocasse contra a liberdade de qualquer um.
Caracinza continuava ouvindo, atentamente. Todos ouviam. Nenhum cochicho. Nenhum ruído. Apenas o bruxulear das velas.
- Admita que está errado, Ariadno.
Ariadno olhou para Lorde com ódio. Seus olhos vermelhos mandavam uma mensagem clara: estou decidido a não admitir meus erros.
- Diga! - berrava Lorde.
Ariadno fez sinal que não.
- Diga! É a sua...
Um tiro.
Ariadno estava... Morto.
Éris estava com sua arma em punho. Lorde se voltou para ela, sério.
- Chega, Lorde. Seu show acabou.
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